CRONOLOGIA

1522

Construção da primitiva ermida de Santa Clara.

1580 

Criação da terceira paróquia de Ponta Delgada, Santa Clara, por determinação do Bispo D. Pedro de Castilho.

1581 

22 de Setembro – Em visita pastoral, de D. Pedro de Castilho acrescentou a paróquia para Nascente, até à Rua da Cruz, aumentando assim de 62 para 219 o número de fogos, e de 297 para 766 as almas de confissão.

1714 

Santa Clara perde o estatuto de paróquia e a evocação da Santa é mudada para uma nova igreja construída em São José.

1728 

10 de Setembro – Confirmada a criação do curato no local de Santa Clara, subordinado à paróquia de São José.

1834 

Transformação do antigo Cemitério dos Ingleses no Campo da Igualdade (cemitério hebraico de Ponta Delgada).

1861 

30 de Setembro – Início da construção do porto artificial de Ponta Delgada, com recurso a pedra extraída das pedreiras de Santa Clara.

1873

Segundo a Capitania do Porto de Ponta Delgada, estão registados 125 pescadores e 31 embarcações de pesca de Santa Clara.

1874

19 e 20 de Maio – O Jornal Diário dos Açores publica a criação, pelo governo, do curato com evocação a Santa Clara.

1875

29 de Agosto – Saída, em procissão, de São José para Santa Clara, da nova imagem da padroeira.

1883

3 de Novembro – Início da construção do Matadouro Municipal de Ponta Delgada.

1886

11 de Abril – Inauguração do Matadouro Municipal.

1898

11 de Maio – Trasladação do Santíssimo Sacramento da Igreja de São José para o curato de Santa Clara.

1901 

11 de Julho – Inauguração de Escola Século XX na “Mata da Doca” – Parque Dinis Moreira da Mota.

1902

15 de Dezembro – Constituição da “União das Fábricas Açoreanas de Álcool”, conhecida por Fábrica de Santa Clara.

1903

15 de Julho – Por carta de Lei, a “União das Fábricas Açoreanas de Álcool”  é autorizada a instalar uma fábrica de açúcar.

1918

18 de Janeiro – Estabelecimento da Base Naval Americana no Porto de Ponta Delgada, com o grosso das tropas acantonado na “Mata da Doca” .

1919

1 de Setembro – Desmobilização da Base Naval Americana.

1921

Início de actividade dos depósitos de combustível da Tagus Oil Company.

1922 

3, 5 e 7 de Outubro – A imprensa local dá enorme relevo à apresentação pública de um novo team, o Santa Clara Foot-ball Club, instruído pelo alferes José Joaquim de Sousa.

8 de Outubro – O Santa Clara Foot-ball Club vence o Terror Sport Club por 4-0 no seu jogo de apresentação.

1923

3 de Maio – O Santa Clara Foot-ball Club inicia a participação na sua primeira época desportiva oficial.

1927

12 de Março – Exclusão definitiva do Santa Clara Foot-ball Club da Associação de Foot-ball de São Miguel.

20 de Março – Formalização do pedido de inscrição do Sport Club Santa Clara na Associação de Foot-ball de São Miguel.

21 de Junho – Aprovação, em assembleia geral, dos estatutos de fundação do Clube Desportivo Santa Clara.

29 de Julho – Promulgação, pelo governador civil, major Abel d’Abreu Sotto-Mayor, do alvará de fundação do Clube Desportivo Santa Clara.

6 de Agosto – Pedido de inscrição na Associação de Foot-ball de São Miguel do Clube Desportivo Santa Clara.

Novembro – É aceite a inscrição do Clube Desportivo Santa Clara como membro da Associação, o único dos “Santa Clara” que se mantém até hoje como tal.

1930

2 de Agosto – Inauguração da fábrica da Sociedade Micaelense de Conservas, Lda – “Fábrica de Conservas Lory”.

1935 

10 Abril – Após cinco anos de auto suspensão, o Sport Club Santa Clara solicita a readmissão, que é aceite na Associação.

16 Abril – Por alteração estatutária, o Sport Club Santa Clara passa a denominar-se Grupo Desportivo dos Manipuladores de Pão: Os Padeiros.

1936 

Janeiro – Extinção d’Os Padeiros, ex- Sport Club Santa Clara.

15 de Março – Oferta por um anónimo da imagem de São João Bosco à Igreja de Santa Clara.

19 Março – Inicio do culto a São João Bosco.

1937

31 Janeiro – Santa Clara festeja, pela primeira vez no dia que litúrgico que lhe está destinado, São João Bosco. O grave estado de saúde de Sua Santidade o Papa Pio XII impede a paróquia de obter a bênção papal.

1941

O Patronato de São Miguel muda-se para as instalações da Escola do Século XX na “Mata da Doca”.

1942 

De 24 para 25 de Junho – Morrem quatro pescadores de Santa Clara no naufrágio de um barco: Francisco Costa, Guilherme “Magarça”, Jacinto Caboz e Manuel Rodrigues.

1944 

31 Maio – Bênção, na igreja de São José, das imagens do Sagrado Coração de Jesus e de São João de Brito, oferecidas pela família Lory à Igreja de Santa Clara.

Junho – Início das obras da nova sacristia da Igreja de Santa Clara, patrocinadas pela família Lory.

3 de Setembro – No domingo festivo de Santa Clara, ocorre a inauguração e bênção da nova sacristia.

1945 

15 de Junho – Inauguração do farol de Santa Clara.

12 de Agosto – Realização de um jogo de futebol entre as equipas Pirata Negro e Grupo de Estudantes (4-1) a favor das obras da Igreja de Santa Clara.

1948 

Janeiro – Início da ocupação do Bairro Económico da Rua de Lisboa.

29 de Abril – Inauguração oficial e bênção do Bairro Económico.

Junho – Início da construção, na Nordela, da Fábrica de Santa Clara da Sociedade de Lacticínios Furtado Leite.

1949

8 de Dezembro – O Padre Fernando Vieira Gomes celebra a sua primeira missa no curato.

1951  

Junho – Transferência para a Fábrica de Lacticínios Furtado Leite do fabrico de manteiga, já realizado nas instalações do Ramalho.

1954

A Cooperativa Bom Pastor adquire um terreno na avenida Príncipe do Mónaco.

É constituída a Unileite – União das Cooperativas Agrícolas de Lacticínios e de Produtores de Leite da Ilha de S. Miguel.

1957

7 de Maio – Decreto, assinado pelo Bispo D. Manuel Afonso de Carvalho, da elevação do curato a paróquia.

1958 

9 de Novembro – Inauguração e início de funcionamento da Fábrica de Papel, no Parque Diniz da Mota (actuais instalações do A. C. Cymbron Lda.), propriedade da Sociedade Produtos Açorianos de Papel Lda.

1959 

Maio – Início de actividade da unidade fabril da Unileite na Avenida Príncipe do Mónaco.

31 Agosto – Apresentação pública do Terminal Oceânico da Mobil Oil, construído na Nordela.

2 Setembro – Inauguração do pipeline da Móbil Oil, entre o Porto de Ponta Delgada e as instalações da Nordela.

18 de Outubro – Inauguração oficial das instalações da Mobil Oil na Nordela.

1961 

De Agosto a Outubro – Construção, com recurso à mão de obra dos internos, do ringue de patinagem do Patronato de São Miguel, na Mata da Doca.

Dezembro – Inauguração, com bênção do Padre Fernando Vieira Gomes, do ringue de patinagem do Patronato de São Miguel.

1962 

1 de  Outubro – Início de actividade e inauguração oficial do Matadouro Frigorífico e Industrial de Ponta Delgada.

1969 

22 de Setembro – Início de actividade dos depósitos POL NATO.

24 de Agosto – Inauguração do aeroporto de Ponta Delgada, cujo terminal e parte da pista se situam em Santa Clara.

1984

10 Setembro – Início da 1ª fase das obras do prolongamento da pista e novas instalações do aeroporto.

1999

21 Abril – O Aeroporto de Ponta Delgada passa a denominar-se Aeroporto João Paulo II, com uma pista de 2520 m, que se estende de Nascente para Poente, da Avenida Príncipe do Mónaco até à Relva.

8 de Dezembro – Celebração das bodas de ouro sacerdotais do padre Fernando Vieira Gomes.

2001 

16 Julho – Apresentação, na Assembleia Legislativa Regional dos Açores, por iniciativa do PCP,  da proposta de criação da freguesia, documento aprovado por unanimidade.

2002

10 de Julho – Publicação do Decreto Legislativo Regional n.º 25/2002/A, que cria a freguesia, resultante da divisão da freguesia de São José.

26 de Outubro – Falecimento do Padre Fernando Vieira Gomes.

2004

28 de Agosto – Inauguração do Centro Cívico e Cultural de Santa Clara.

2005 

9 de Outubro – Eleição dos primeiros órgãos autárquicos da freguesia, tendo como vencedor o Grupo de Cidadãos Eleitores Santa Clara-Vida Nova que concorreu contra PSD.

2007 

7 de Maio – Comemoração do 50º aniversário da elevação a paróquia.

7 de Maio – Apresentação pela Junta de Freguesia de Santa Clara de proposta de símbolos heráldicos à Comissão de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses .

25 de Julho – Parecer da Comissão de Heráldica.

2008 

17 de Janeiro – Aprovação em Assembleia de Freguesia, por unanimidade e aclamação, da proposta de estabelecimento dos símbolos heráldicos.

10 de Março – Publicação em Diário da República dos símbolos da freguesia.

23 de Abril – Apresentação pública da Heráldica de Santa Clara.

27 de Abril – Primeira apresentação em desfile, do estandarte da freguesia de Santa Clara, na procissão do Senhor Santo Cristo.

2009

11 de Outubro – Eleições Autárquicas com as candidaturas Grupo de Cidadãos Eleitores Santa Clara-Vida Nova, PSD e CDS-PP a concorrerem à Assembleia de Freguesia. Santa Clara-Vida Nova vence e renova o mandato.

2010

17 de Julho – Inauguração do Jardim Padre Fernando Vieira Gomes (Requalificação do espaço restante da “Mata da Doca”).

2013

29 de Setembro – Eleições Autárquicas com as candidaturas Grupo de Cidadãos Eleitores Santa Clara-Vida Nova e PSD a concorrerem à Assembleia de Freguesia. Santa Clara-Vida Nova vence e avança para o terceiro mandato consecutivo.

2015

Início do processo de deslocalização dos Tanques de Óleo da zona da Pedreira do Meio para a Nordela, que viria a ficar concluído em 2016.

2017

1 de Outubro – Eleições Autárquicas com a candidatura única do Grupo de Cidadãos Eleitores Santa Clara-Vida Nova à Assembleia de Freguesia. Santa Clara-Vida Nova conquista o quarto mandato consecutivo.

“Não se construiu a nova igreja de Santa Clara na “Mata da Doca” e um jardim de dimensões óptimas, com parques de diversões e campos de jogos, porque os senhores do poder nunca o quiseram, não autorizando o andamento dos projectos. A paróquia de Santa Clara perdeu muito com isto, SE SANTA CLARA JÁ FOSSE FREGUESIA TALVEZ NÃO FOSSE ASSIM.”

Padre Fernando Vieira Gomes,

Homilia da Festa do Cristo Rei, 1968

Da Santa Clara do séc. XVI à Santa Clara do séc. XXI

Abertura do livro de assentos de baptizado da original Freguesia de Santa Clara, 11 de Novembro de 1607  (Colecção da BPADPD). 

 

Em 1580, decorria o último quartel do séc. XVI, quando aconteceu o que o seguinte extracto registou:

a terceira freguesia, novamente feita, de Santa Clara, antes de ser acrescentada, tinha sessenta e dois fogos   almas  de confissão  duzentas e noventa e sete, das quais eram de comunhão duzentas e três. (Gaspar Frutuoso (1522-1591) – Saudades da Terra L.º IV – Vol I (p. 308))

Foi, pois, Santa Clara a terceira freguesia a ser criada na cidade Ponta Delgada.

Em 1581, D. Pedro de Castilho, Bispo dos Açores, visitou a ermida de Santa Clara, exígua “pia baptismal” da novel freguesia, também naquela altura acrescentada para nascente por vontade do mesmo prelado.

Bispo D. Pedro de Castilho, que em 1580 determinou a criação da terceira freguesia de Ponta Delgada.

 

A partir do primeiro quartel de setecentos, Santa Clara alterou a sua denominação para São José, subsistindo, sob protecção do patrono original, um singelo curato.

Passados 421 anos, dá entrada na Assembleia Legislativa Regional dos Açores, entusiasticamente apoiada pela população da paróquia, a proposta de diploma que, decorrido menos de um ano, restitui a Santa Clara o estatuto de freguesia que já tivera e perdera.

 

Berço da cidade

Desde os primórdios, e até inícios do século XX, tanto por Norte como pelo Sul era o mar a principal “estrada” da ilha.

 

Quando ainda Vila Franca era o aglomerado principal de S. Miguel, o lugar da ponta delgada não passava de uma aprazível e abundante coutada de caça para os abastados habitantes da primeira capital da ilha:

Os porcos do monte eram tantos e tão bravos que davam grande trabalho aos monteiros. Havia infinidade deles além da cidade da Ponta Delgada, para aquela banda de Santa Clara, até à casa de Francisco Ramalho, onde os iam montear os moradores de Vila Franca, levando mantimento em seus batéis para alguns dias, nos quais, fazendo salga neles, se tornavam com muitos para a mesma Vila. (Gaspar Frutuoso (1522-1591) – Saudades da Terra L.º IV – Vol I (p. 313-314))

 

Aquele lugar, que mais tarde se viria a chamar Santa Clara, já era tido então como uma importante referência da costa Sudoeste da ilha. Para isso deve ter sido factor determinante a localização e orografia do local, combinando uma enseada de areia e calhau rolado com a esguia extremidade que “baptizou” Ponta Delgada.

De facto, aquela estreita mas longa língua de basalto, que protegia da ondulação ali predominante o âmago de um recôncavo litoral outrora balizado pelo “Cunhal da Maré”, também uma singular marca natural daquela orla, transformava todo o conjunto num inconfundível ancoradouro natural, o último para quem navegava de Vila Franca para Poente, porque, a partir dali, por a costa se elevar progressivamente, deixa de ser fácil o acesso por mar.

Incrementando-se o vaivém das caçadas, alguns dos serviçais que acompanhavam os monteiros de Vila Franca fixaram-se naquelas paragens, originando um pequeno núcleo populacional constituído na sua essência por marítimos, que com o decorrer dos anos se alongou de forma pouco ordenada em direcção a Nascente, acabando por dar origem à cidade de Ponta Delgada,

assim chamada por estar situada junto a uma ponta de pedra de biscouto, delgada e não grossa como as restantes da ilha, quase rasa com o mar, que depois por se edificar mais perto dela uma ermida de Santa Clara, se chamou ponta de Santa Clara . (Gaspar Frutuoso (1522-1591) – Saudades da Terra L.º IV – Vol II (p. 31))

 

De lugar da ponta delgada a Santa Clara de Ponta Delgada

Imagem da Padroeira Santa Clara.

 

Dificilmente seria mais adequada a escolha de uma protectora divina para os habitantes do humilde povoado que emergiu na extrema da enorme baía, limitada pela ponta da Galera, a nascente, e a ponta delgada, a poente: Santa Clara, a fundadora das Clarissas, o ramo feminino da Ordem Franciscana.

Depois de construído o templo em honra da milagrosa instituidora das “damas pobres”, uma singela ermida da qual não se conhece, com rigor, quer a data de edificação quer a sua primitiva localização, o local passou a adoptar a denominação da padroeira, Santa Clara, cedendo assim o seu nome original – Ponta Delgada –, ao burgo onde se achava inserido.

Além, pouco espaço da fortaleza para loeste, está uma ponta que se chama Ponta dos Algares (…) e logo está uma pequena baía de areia, defronte das casas do generoso e em tudo grandioso Francisco Arruda da Costa (…) e com grande custo seu cercada de muro e cubelos, com sua porta para o mar, tudo muito defensável, e pegado com a porta, chamada de Santa Clara, por estar ali a igreja paroquial desta Santa. (Gaspar Frutuoso (1522-1591) – Saudades da Terra L.º IV – Vol I (p. 313-314))

Património natural, histórico e edificado

 Pormenor da orla marítima de Santa Clara, vendo-se em bom plano a “Ponta Delgada” e o “Calhau da Areia” (na década de cinquenta), recanto do “Castelinho”, com destaque para uma canhoeira e parte do lajeado onde as peças se movimentavam (em Março de 1999), e um rincão do pouco que sobrou da frondosa “Mata da Doca”.

 

Ao tempo, e até antes de ter sido parcialmente atulhada para instalação do caminho-de-ferro que transportou os inertes necessários para a construção do porto, a enseada a Nascente da ponta delgada, localizada com rigor por Gaspar Frutuoso, era mais profunda do que o é actualmente.

O templo original, que, tal como refere Gaspar Frutuoso, se sabe ter existido pelo menos desde 1522, não devia estar a grande distância do sítio onde está implantada a actual igreja. A referência é o “calhau da areia”, a tal baía referida como situando-se em frente das fortificadas propriedades de Francisco Arruda da Costa, portanto, não muito longe do local onde ainda hoje se pode ver o que resta do “castelinho”, originalmente assentando as fraldas das suas muralhas nas rochas, logo acima da linha de preia-mar, como é comum nas construções suas congéneres da ilha.

Este reduto militar, construção do séc. XVI ou XVII, com a sua primeira grande reparação efectuada em 1643, e que já foi um baluarte na defesa daquela zona, é uma das mais antigas, se não mesmo a mais arcaica edificação do povoado.

Do património natural que chegou aos nossos dias, para além do pouco que resta da “mata da doca” todo ele relacionado com a orla marítima, e com inventário feito há mais de quatro séculos, à “ponta delgada” e “calhau da areia”, já referidos, acresce a “ponta dos algares” – actualmente, “ponta dos aringas”-, cujas “bocas”, arrasadas no início do séc. XX para sobre elas alojar reservatórios de combustível, estão hoje talvez definitivamente atabafadas.

 

A construção do porto – uma “revolução industrial”

Operários e máquinas a vapor em actividade durante a exploração das pedreiras da “Mata da Doca”, o Porto, e outras ocupações da “Mata da Doca”.

 

Acompanhando o ritmo de ocupação do território, a agricultura e as formas mais ou menos rudimentares de transformar os produtos da terra passaram a ganhar cada vez maior expressão em redor do primordial aglomerado da zona ocidental da ilha. No primeiro quartel do séc. XX ainda existiam os pitorescos moinhos de vento, engenhos que, não obstante a baixa altitude do local, aproveitavam os ventos predominantes de uma orla marítima exposta a Sudoeste, e convertiam em alimento o resultado das duras labutas nos campos de cultivo então por ali ainda muito abundantes.

A grande transformação social de Santa Clara dá-se com a construção do porto artificial de Ponta Delgada, a partir de finais de 1861, ao acolher os muitos pedreiros e cabouqueiros que nas “pedreiras da doca” vão encontrar o sustento para si e suas famílias. Santa Clara, de subúrbio particularmente piscatório, passa, assim, também a bairro operário.

Na transição do séc. XIX para o séc. XX, já com o porto em franco funcionamento, a localidade acentua ainda mais a sua particularidade de arrabalde proletário ao fixarem-se nela algumas das mais importantes unidades industriais de Ponta Delgada. Esta brusca e quase que compelida alteração social, para mais, condimentada pelos irrequietos ventos políticos da época, reforça a bem vincada identidade das gentes de Santa Clara, desde sempre muito notada, e ainda hoje bem presente.

 

Lazer e desporto

Logotipos, obtidos a partir das folhas de ofício, de cada um dos três “Santa Claras” filiados na Associação de Foot-ball de S. Miguel, hoje, Associação de Futebol de Ponta Delgada. 
SCFC; de Setembro de 1922 a Abril de 1927. SCSC; de 20 de Março de 1927 a 16 Abril de 1935. CDSC; de 21 Junho de 1927 até à actualidade.

 

Os habitantes de Santa Clara das primeiras décadas do séc. XX, votados que estavam ao desempenho de duras tarefas, dispunham de pouco tempo para o ócio. O escasso vagar que conseguiam era, fundamentalmente, dedicado ao desporto, especialmente o futebol que, tendo chegado a São Miguel pouco tempo antes, encontra nos “campeonatos de Santa Clara” – competição entre equipas representando algumas das lojas do bairro – um palco privilegiado para o seu fomento e divulgação.

Esta fervilhante actividade desportiva local, que se sabe ter tido prática regular pelo menos desde meados da segunda década do século passado, ganha especial incremento após a saída do contingente americano estacionado no “Field Azores”, em plena Mata da Doca, na ponta final da I Guerra Mundial.

Da evolução deste fenómeno sociodesportivo resulta o aparecimento do Santa Clara Foot-ball Club, cuja apresentação pública acontece em Outubro de 1922, e que em Abril do ano seguinte se torna num dos quatro fundadores da Associação de Foot-ball de São Miguel.

Santa Clara Foot-ball Club foi o primeiro dos três “Santa Clara” a ser admitido nas corporações da modalidade, nomeadamente, na associação de futebol local e na federação portuguesa correspondente. Os outros dois “Santa Clara” agremiados que se lhe seguiram foram o Sport Club Santa Clara e o Clube Desportivo Santa Clara, este, com existência legal desde 29 Julho de 1927 e, dos três clubes, aquele que se mantém em actividade. É o único, de entre todos os clubes de futebol dos Açores, que acedeu e competiu no mais alto escalão do futebol português.

Restauração do estatuto de freguesia

Proposta de criação da Freguesia de Santa Clara, entregue pelo PCP a 16 de Julho de 2001 na ALRA, documento aprovado unanimemente no Parlamento dos Açores;
Decreto Legislativo Regional – 25/2002/A – que cria a Freguesia de Santa Clara em resultado da divisão da de São José (a original Santa Clara).

 

Quando o padre Fernando Vieira Gomes, em Dezembro de 1949, com 27 anos, chega a Santa Clara para iniciar a sua vida sacerdotal, depara-se com um curato paupérrimo, carecido de quase tudo, até de paramentos, cujo cofre – cinquenta centavos em dinheiro e mais de vinte contos de dívidas –, espelhava bem a penúria das almas ali residentes.

A 7 de Maio de 1957 – ainda nem uma década decorrera desde a sua chegada –  o padre Fernando, mercê do seu abnegado esforço, vê concretizado um dos objectivos em que muito se empenhara; a criação da paróquia de Santa Clara.

Como visionário e senhor de inabaláveis convicções que era, o firme guia da comunidade queria mais. Era igualmente seu desejo, e em condições normais uma natural consequência da transformação do curato em paróquia, obter também a promoção a freguesia. Isto, porém, não foi conseguido naquela altura.

Nunca se desligando deste projecto, o padre Fernando ainda assistiu ao anunciar do feliz desfecho de uma lide que sempre acompanhou e acarinhou.

Após uma vida de luta, depois de superados vários reveses, foi possível ao grande mentor do desígnio sentir o aroma de uma vitória que apadrinhou, mas que, infelizmente, já não pôde saborear na plenitude.

É geralmente assim o destino dos precursores das grandes causas.

João Pacheco de Melo