… Não a um novo porto em Santa Clara!

Na sequência de algumas crónicas e opiniões que nos últimos meses têm visto a luz do dia através dos órgãos de comunicação social, defendendo a construção de um novo porto na orla marítima de Santa Clara, na última semana, alguns santaclarenses, usando a mesma via, puderam ver publicados na imprensa local alguns artigos de sua autoria, refutando esta drástica ideia. Decerto, este cinco santaclarenses serão voz da maioria dos habitantes da freguesia.

Orla Marítima de Santa Clara (Foto de 1917)

Para memória futura (porque às vezes ela é curta), aqui ficam os excertos mais relevantes dos cinco artigos publicados entre 07 e 14 de fevereiro de 2019:

“(…)Santa Clara FAZ parte da cidade, é uma das suas freguesias e integra uma parte da sua orla marítima, que até já tem projeto de ordenamento para passeio e lazer (tal como aconteceu em S. Roque). Onde antes existiam fábricas, matadouros e parques de combustíveis, a malha urbana estendeu-se e agora existem pessoas de cidadania plena que lutam por melhorar, e nalguns casos conseguem (como aconteceu com os depósitos de combustível da Bencom), as suas condições de vida e de habitabilidade e por isso mesmo se constituíram há mais de 16 anos como freguesia.(…)

(…)É pela criação de condições e qualidade de vida aceitáveis para quem nela reside e transita que a freguesia trabalha. Décadas de poluição e perigosidade foram finalmente interrompidas com a saída dos depósitos de combustível da sua orla costeira. Os sempre reivindicados melhoramentos urbanos e da sua rede viária têm-se vindo a executar com alguma continuidade, seja pelo Governo seja pela Câmara Municipal, podendo já hoje dizer-se que Santa Clara está a recuperar do ostracismo e dos atrasos a que estava sendo votada há muitos anos. Este é um caminho para prosseguir…(…)

(…)pois o novo porto a construir em Santa Clara destinar-se-ia então a remeter para esta freguesia todo (e só) o trabalho “sujo” que infelizmente um porto comercial acarreta, deixando para uma imensa e subutilizada doca apenas as valências ditas nobres (…)”

Mário Abrantes, 07-02-2019 in Diário dos Açores

Ponta delgada (também conhecida como ponta da sardinha), aquela que deu nome à cidade

 

“(…)Ponta Delgada, nasceu naquele local e daí recebeu o seu nome, e seria um crime irreparável, profanar a sua memória. Temos, para reflectir, o bom senso leva-nos a isto,o recentemente, problema da Calheta de Pêro de Teive com todas as suas nefastas implicações.

(…) a orla marítima de Santa Clara tem de ser olhada e potenciada no que ela nos pode proporcionar de benévolo a todos, e tem muito, queiram  quem de direito se preste a isso.

Santa Clara desde que se tornou freguesia, tem, numa luta de consciencialização de todas as suas gentes, que estão fortemente unidas, precisamente no objectivo de se libertarem de forma condigna, daqueles elefantes brancos(…), como preciosas estruturas, para que estas sejam utilizadas com finalidades adequadas às funções direccionadas ao normal e natural funcionamento duma cidade e não como lixo tóxico, industrial ou qualquer outro que anteriormente a fustigaram e ainda a fustigam, desde largas décadas.(…)

Que ninguém tenha qualquer dúvida, que Santa Clara está atenta, a qualquer manobra, bem ou mal intencionada que a  pretenda  reenviar para a sua anterior e lastimável situação, e fiquem a saber que a motivação e a disponibilidade das suas gentes, não o vão permitir, custe o que custar.”

José Valério, 09-02-2019 in Correio dos Açores

Ruínas do Castelinho de Santa Clara

 

“(…)já apareceram outros estudos e até um PDM que, não fora, também, a eficaz intervenção de “Santa Clara – Vida Nova”, não só fazia “arrancar” o molhe de protecção do porto mesmo em cima da “ponta delgada” que dá nome a Ponta Delgada, como, entre outras “simplificações”, arrasava “O Castelinho”, hoje, também por intervenção de Santa Clara – Vida Nova”, classificado de Património de Interesse Regional (…)

O “Castelinho” está lá (…); a via litoral (…) já começou a beneficiar Santa Clara; a deslocalização dos “tanques do óleo” – aquela quimera impossível de realizar – está consumada; do arruinado “Matadouro Frigorífico” já não se fala (…), o “sonho” agora é outro: requalificar a histórica orla marítima de Santa Clara (…), mas parece que isso não agrada, sempre aos mesmos!

Valha-nos a nossa consistência, perseverança e crescente gosto e dedicação. Valha-nos também Santa Clara, Santa milagreira, nossa protectora, nossa padroeira: para fortuna nossa e azar deles!”

João Pacheco de Melo, 12-02-2019 in Açoriano Oriental

Desenho de João Cabral (1884)

 

“A vantajosa ou eventualmente necessária construção de um novo porto em Ponta Delgada tem vindo a público, nos últimos dias, na imprensa local, em artigos de opinião de perspetivas contrárias.

(…) Não consta que haja qualquer movimento reivindicando a construção de um novo porto, por parte das entidades envolvidas na sua utilização. A pretensão resume-se assim a opiniões isoladas e, que se saiba, sem representatividade.

(…) O Governo Regional, há muito pôs de parte a construção de um novo porto em Ponta Delgada, após a análise de um estudo preliminar efetuado há 30 anos, creio que por iniciativa da Câmara do Comércio.

(…) O que está a faltar no Porto de Ponta Delgada é maior capacidade do seu Cais de Cruzeiros (…)

Se houver que aumentar o atual cais ou construir um novo, é (…) a nascente do centro da cidade e nunca para os lados de Santa Clara. Não faria sentido (e custaria uma fortuna) construir um novo molhe em Santa Clara, paralelo ao atual, para conspurcar novamente um freguesia que se tem vindo a livrar da poluição provocada pelos tanques de combustíveis e pela Fábrica do Açúcar. Já lhe basta estar encurralada entre o porto e o aeroporto, o que tem impedido o seu crecimento.”

Emanuel Carreiro, 13-02-2019 in Açoriano Oriental

Mar em dia de tempestade (Furacão Alex, Janeiro de 2016)

 

“(…) Como moradora na zona litoral, com vista para o mar imenso, observo, todos os dias, a perigosidade desta zona, que é imprópria para a construção de qualquer “porto”, seja ele comercial ou outro. Não está situada na baía de protecção de Ponta Delgada, pois já fica em mar alto, com correntes marítimas muito fortes. Quando há mau tempo, com grandes depressões e ciclones, o que é muito frequente, o mar costuma galgar a terra, e está previsto aumentar no futuro. Aliás, esta zona de Santa Clara até à Relva, estando em mar aberto e desprotegida, repito, é imprópria e perigosa para construir um porto, seja ele o que for. Seria um investimento de milhões, e de prejuízos, e destruição constantes, em que os barcos estariam sempre destruídos, em terra.(…)

(…) Santa Clara e a sua população merecem mais respeito e uma vida digna, com qualidade, atendendo a que ela deu o nome e foi o berço da cidade pela sua ponta delgada. Vamos querer destruir o que ainda resta desta ponta delgada, que faz parte da história da cidade? Retrocedendo ao antigamente, podemos recordar esta zona com os seus moinhos, que foram destruídos pelos grandes temporais, e nunca mais foram recuperados, depois da devastação desta zona. Uma pena para o nosso património! (…)

(…) Assim, os cidadãos de Santa Clara ficarão atentos a todos os estratagemas dos que sonham acordados opinem, porque não vivemos numa terra de ignorantes, e sabemos que um governo sábio nunca irá permitir a construção de tal insensatez.”

Lubélia Travassos, 14-02-2019 in Correio dos Açores